quarta-feira, 13 de junho de 2018

Você está animado para a Copa?

Caramba! Já tem Copa do Mundo de novo?!  Os últimos 4 anos passaram voando. Não sei se eles passaram voando, mas é que quanto mais velho você fica, mais a passagem do tempo parece acelerada. 

O ano de 2014 parecia um ano com perspectivas melhores do que 2018! A Copa era no Brasil, as pessoas estavam animadas por isso. As cidades eram visitadas por gente de todo o planeta. Era uma festa. Mas a seleção da CBF era mais ou menos. E a constatação da qualidade do time ficou evidente com o filme de terror que foi a partida contra a Alemanha. 

Pesquisa DataFolha acaba de mostrar que 53% dos brasileiros não estão interessadas na Copa do Mundo. Acho que o problema ainda é a frustração causada pela derrota do futebol brasileiro em 2014 e do país como um todo neste quadriênio. 

Tivemos dois presidentes, em vez de um no período. O atual ocupante está numa situação tão ruim, que se houvesse 10 pessoas numa sala, não haveria uma que gostasse dele. Para ser correto, um terço de uma pessoa gostaria. Vamos dizer que nove não gostariam e uma, do joelho para baixo, aprovaria o governo. 

Em 2014 havia candidatos bem definidos, já em 2018, o panorama é turvo, com a imprevisibilidade dando a tônica da realidade política. 

Mas eu queria mesmo falar de Copa do Mundo. Esse desvio político foi causado pela “boca torta” dos últimos tempos. 

Nesta Copa, pesa contra para mim, um pouco de saturação com as trapaças e o atraso que se vê no mundo da bola tupiniquim. Os melhores jogadores indo embora cedo. Zico, que jogou mais do que esses caras todos, foi vendido aos 30 anos. Graças a isso, formou uma legião de rubro-negros, além de ter fundado uma “religião”. 

Numa entrevista ao Jornal o Globo, Vinicius Jr diz que ficou pouco tempo no clube disse que gostaria de ser ídolo na Flamengo. No entanto, como segurar jogadores quando um caminhão de dinheiro estrangeiro é direcionado  à contratação de um adolescente? 

Mas estamos de novo em período de Copa. Essa já está caprichando na quesito “ineditismo”. A favorita Espanha demitiu o técnico um dia antes do começo do mundial. Nunca vi isso. Outra coisa: vai ter árbitro de vídeo. Tenho medo das trapalhadas que podem acontecer. 


Esse post já tem sua dose de ineditismo também. Nunca comecei um texto com a palavra “caramba”. Depois de algum tempo na estrada, algumas amarras, talvez por conta do desgaste, vão se desprendendo. Por isso, espero que durante sua Copa do Mundo, haja mais “carambas” positivos do que “carambas” negativos. Eis que no fim, escrevi a palavra quatro vezes, ou melhor, cinco: caramba!

terça-feira, 12 de junho de 2018

O Shopping da Bahia e a infância roubada

O algoritmo do Facebook me lembra que há 4 anos eu posava numa foto com pessoas queridas para celebrar a Copa do Mundo no Brasil. Estávamos felizes e num momento “com o brasileiro não há quem possa”.  A Alemanha nos mostrou que há sim e enfiou um 7 a 1 sonoro e significativo. Um 7 a 1 tão simbólico que a cada dia o Brasil parece levar um novo gol. 

O mais recente “gol da Alemanha” aconteceu no Shopping da Bahia. O vídeo começa com um jovem discutindo com um segurança. O motivo: ele queria pagar o almoço para um menor de rua que estava no templo do consumo. A discussão foi surrealista. O segurança dizendo que ele não pagaria o almoço e o o jovem insistindo que faria. Mais algum tempo e chegaram outros seguranças para reforção  o bloco fascista de “não pode pagar”. 

O rapaz insistiu que pagaria. O supervisor do Shopping da Bahia “autorizou” e o menino pode comer. Há um cardápio de injustiças sociais nas imagens. O menino era negro e pobre. Em vez do acolhimento, a infância roubada em forma de preconceito. A culpa de estar ali, sem condições de se alimentar não é dele, é nossa. Não nos indignamos, apenas respaldamos o modelo político-social que colocou aquele menino em situação de fragilidade. 

Tratamos nossas crianças negras e pobres muito mal. Não nos importamos quando as escolas delas são fechadas por causa de tiroteios de traficantes. Viramos o rosto para elas nos sinais de trânsito.  Ficamos com medo da aproximação. 

A ação dos seguranças, até por se passar na Bahia, me lembrou a canção “O Haiti”, de Gilberto Gil e Caetano Veloso: 

“Quando você for convidado para subir no adro da Fundação Casa de Jorge Amado pra ver do alto a fila de soldados, quase todos pretos, dando porrada na nuca de malandros pretos, de ladrões mulatos e outros quase brancos, tratados como pretos”. 

Alimentamos uma sanha obsessiva por consumo, mas o shopping, o “templo”, dessa religião, só pode ser frequentado por alguns. O mais curioso é que muitos desses lugares permitem a entrada de cachorros. Crianças pobres não são bem-vindas. 

A música sempre pode iluminar o caminho. Essa ultima frase me lembrou Eduardo Dusek dando um tapa em nossos costumes burgueses: “Troque seu cachorro por uma criança pobre”. 

O vídeo do Shopping da Bahia nos faz pensar o quão desafinada é nossa sociedade. E como se fosse um meme em looping, uma alucinação com gols da Alemanha em profusão. Com 518 anos levando gols, não há título da seleção da CBF que possa virar esse jogo. 

Se você tiver estômago, o video está no link abaixo. Eu aconselho a ver. Ajuda a refletir se você está fazendo a sua parte. O pior é pensar que hoje, o menino, provavelmente, não sabe o que vai comer. 



segunda-feira, 11 de junho de 2018

Globo e Tupi farão cobertura desbotada da Copa

Uma das características tradicionais nas transmissões esportivas no rádio é o uso do reverb. Se você não liga o nome à pessoa, é aquele efeito que dá uma ideia de amplitude na voz, aumenta o eco e, consequentemente, preenche espaços sonoros. 

Já ouvi opiniões respeitáveis contra e a favor sobre o uso do reverb. Como tudo na comunicação, depende da linha editorial adotada pelo veículo. 

O Show do Antônio Carlos, hoje transmitido pela Tupi, sempre usou. Roberto Canazio usava  Tino Júnior, por exemplo, não gostava de usar. 

O certo é que o reverb é um recurso muito usado em rádios populares e talk. O som do reverb sublinha uma época. Como disse anteriormente, depende do gosto do freguês 

Estava na rua no momento do jogo do Brasil. Decidi ouvir o que faziam as rádios Globo e Tupi. A emissora da Fonseca Teles escalou o time titular. José Carlos Araujo e Washington Rodrigues. 

Os locutores chamam o uso do reverb de “brilho da voz”. Enquanto na Tupi, o eco era usado “sem medo de ser feliz”, na Globo, se havia, era discretíssimo. Qual o resultado sonoro?

A transmissão da Globo era cool, era Bossa Nova, um clássico, como clássica e charmosa é a transmissão de Edson Mauro. A transmissão da Tupi era uma festa animada. O brilho na voz e a interação de Garotinho e Apolinho davam um ar muito mais animado na condução do jogo do time da CBF. Nada a ver com a qualidade dos comunicadores, todos craques,  e sim com a plástica das transmissões.

Entendo e não acho totalmente errado que a rádio Globo tenha abolido o reverb de sua plástica sonora. Da mesma forma, compreendo que a Tupi não é mais concorrente da Globo. No entanto, no futebol, por mais que o comando da Globo queria modificar o fato, a verdade é que as duas disputam o mesmo público. 

Deixar a narração quase “flat”, como fez a Globo no jogo da seleção, dá um ar de anticlímax à transmissão. O ouvinte acostumado com a transmissão radiofônica irá para os braços da Tupi. 

Quem pensa em rádio não pode pensar apenas no que é dito, mas como essa mensagem é plasticamente embrulhada. A plástica da Globo no futebol está o tanto quanto sem brilho. 

A música da Copa que a Globo lançou é um pouco chata. A rádio deu uma guinada para a sofisticação, mas na hora de escolher a trilha sonora para a Copa, fez a opção por uma melodia mais humorística. 

Então, há um conflito na transmissão esportiva. Uma plástica “flat” com a bola rolando e uma música “engraçadinha” como trilha da Copa. 

O fato é que pela primeira vez em muitos anos a emissora não terá locutores no país em que se realiza a Copa. A Tupi também não deve ter. Vou refazer o período anterior, talvez essa seja a primeira Copa desde 1950 em que a Rádio Globo não terá locutores no país em que se realiza a Copa. 

Isso é muito triste para quem gosta de rádio. Daqui a alguns anos, gestores vão entender que não vale ter locutores na rádio. É melhor plugar no som da TV e fazer uma só transmissão. 

Quando isso acontecer, será dado o tiro para acabar com as transmissões de futebol no rádio. O veículo será tratado como apêndice. Ainda sobrará o debate, pelo menos até que alguém, saído de algum setor burocrático, entenda que o debate também é caro.  Aí, nem isso vai sobrar.

domingo, 10 de junho de 2018

Um enorme sapo sujo de lama

Durante evento na Casa das Garças, na Zona Sul do Rio de Janeiro, o ex-ministro da Fazenda Pedro Malan se dirigiu ao ex-presidente Fernando Henrique e disse: por que você não sai candidato?” FHC descartou a candidatura. 

Para situar o leitor que não liga o nome à pessoa, a Casa das Garças é uma espécie de clube “de economistas com filosofia neoliberal”. Muitos dos pais do Plano Real frequentam os eventos que discutem os rumos da economia e da sociedade brasileira em geral. 

Uma das pessoas presentes ao evento disse que acha muito difícil que o ex-presidente se lance. No entanto, meu interlocutor disse que a conversa tinha um grau de formalidade, logo, seria realmente difícil que FHC admitisse concorrer. “Se fosse um papo de chopp e ele dissesse não, eu descartaria de vez. Acho muito difícil, mas não é impossível Fernando Henrique se candidatar”. 

O ponto é o seguinte: essa hipótese pode ser a décima opção tucana, mas é uma ideia que paira em alguns setores da sociedade. 
     
Muita água vai rolar até o começo efetivo da campanha, mas um fato é inegável: Geraldo Alckmin não decolou. As pesquisas o colocam atrás de Jair Bolsonaro, Marina Silva e Ciro Gomes. 

Nenhum dos três líderes, sem o nome de Lula nas pesquisas, é o nome dos sonhos da FIESP, do agronegócio ou das conglomerados de comunicação. Alckmin será provavelmente a escolha desses setores. No entanto, precisa parar de patinar. Essas pessoas não jogam dinheiro fora. Procurarão uma opção para o caso do ex-governador de São Paulo não se tornar um candidato viável. 

Existem dois PSDBs Num deles está Geraldo Alckmin e no outro Fernando Henrique.  As falas favoráveis a Alckmin só saem da boca do ex-presidente em declarações protocolares. Ele não consegue ou não quer apostar as fichas no ex-governador de São Paulo. 

Bolsonaro, Marina e Ciro têm pés de barro nessa eleição. Os dois primeiros carecem de máquina partidária. Campanha presidencial precisa de capilaridade, de diretórios fortes nos rincões do país. Ciro tem mais máquina que os dois, mas seu estilo causa dúvidas. Dos três, é a maior “raposa”. Com o irmão Cid Gomes na coordenação da campanha, pode conseguir as alianças necessárias para garantir uma ida ao segundo turno. 

Se o quadro de candidatos não sofrer alterações significativas, o provável segundo turno será entre Bolsonaro e Ciro. A falta de máquina de Marina pode provocar desidratação, como ocorreu em 2014. 

Esta disputa no segundo turno deixaria a Casa das Garças sem candidato. Até por ter sido tucano, os votos de lá poderiam ir para Ciro. Provavelmente, com um das mãos tampando o nariz e a outra digitando o número do candidato na urna eletrônica. 


Aqueles tucanos de plumagem “retrô”, com o velho espírito da Rua Maria Antônia ,sonham com FHC, aceitariam Marina e engolem Alckmin como um enorme sapo sujo de lama pelas relações “santas” durante o tempo que governou São Paulo.  

sábado, 9 de junho de 2018

Corrigindo e não aprendendo

Andei brigado com os textos do blog. A falta de tempo provocada pelo final do período no mestrado também ajudo e não publiquei nada desde o último domingo. 

No entanto, como havia um erro no último texto, preciso corrigir. O Curta é de fato um excelente canal a cabo. A questão é que o programa nas Nuvens, apresentado por Liminha é do Arte 1. Os dois canais são vizinhos na minha TV por assinatura é isso pode ter provocado minha confusão. 

Alertado do erro pelo amigo Guilherme Boisson, me vi na obrigação de dizer o certo. Pois bem, feita a correção, gostaria de falar de um programa, agora sim, do Curta. 

Trata-se do Documentário Imagens do Estado Novo. O filme de Eduardo Escorel tem nada comerciais 4 horas. Exibido nos cinemas, havia inclusive um intervalo para que o público esticasse as pernas. 

O Canal Curta prestou um grande serviço e exibiu-o em episódios. O filme traz imagens raras da Era Vargas. Não reclamem de spoiler. Vargas é deposto no fim, caso você tenha perdido o final do “filme”. 

No sábado de manhã, tive que percorrer pouco mais de 5 quilômetros entre a minha casa e a apresentação de balé da minha filha. 

Desafortunadamente, fica no Teatro Fashion Mall. Porque desafortunadamente? A guerra urbana do Rio está em curso. E a Rocinha está conflagrada há meses. Moradores reféns do estado de exceção causado pelos bandidos na comunidade. 

É bem ruim a sensação de insegurança. Aprisiona nossas almas. Olhei no GPS e o melhor caminho era a Autoestrada Lagoa-Barra. O trânsito estava ivre no Túnel Acústico, no Zuzu Angel também ia bem. Logo após a última curva, carros parados. Mantive a calma, mas a interrupção abrupta do fluxo de veículos causa sobressaltos no coração do carioca. 

O trânsito começou a andar. Eu achei melhor fazer o retorno por baixo e passar por trás do Fashion Mall para acessar o estacionamento . Ao sair da estrada principal, o motorista se depara com caminhões do exército, homens com roupas camufladas e tanques de guerra. 

Fico pensando que o dia em que eu naturalizar os meus olhos pela presença de um tanque estacionado no meio da rua, algo muito errado aconteceu com a minha sensibilidade. 

Estava com os vidros do carro fechados, trafegando numa velocidade baixa. No entanto fui parado por dois militares. Abaixei os vidros e ouvi o conselho para que continuasse o percurso com os vidros abaixados. 

Segui, cheguei ao teatro. Escrevo este texto antes da minha filha estar na ribalta. Espero que o próximo texto seja lúdico, como lúdico é o balé. Que as cenas do filme que vi na manhã de sábado no Rio, estejam num documentário daqui a 70 anos. 


Se estiver no filme, meus filhos bem velhinhos ainda verão. Espero que a geração deles tenha finalmente aprendido com as imagens do passado para evitar desmandos, tiranos e crises políticas. A minha, pelo que podemos perceber, não aprendeu. 

domingo, 3 de junho de 2018

Paula Toller e a máquina dos sonhos

O canal Curta! é um dos mais interessantes da TV a cabo. Nele assisti ao programa Nas Nuvens, apresentado pelo produtor musical Liminha, espécie de “quinto beatle” do Rock Brasil. Ele trabalhou com quase todas as bandas que estouraram nos anos 80, na esteira do primeiro Rock’N Rio. 

O nome do programa é igual ao do estúdio montado por ele e que se tornou o “Abbey Road” tupiniquim. No programa que vi, a entrevistada foi Paula Toller, musa do movimento, que tinha entre seus fãs ninguém menos do que Ruben Braga e Chico Buarque. 

Paula Toller talvez seja a cantora mais importante do Rock Brasil, nos anos 1980. Aliás, vou reformular, Paula era a única mulher no exclusivo clube do Bolinha das bandas de Rock. Fernanda Abreu e Márcia Bulcão faziam backing vocal na Blitz, mas o protagonismo era de Evandro Mesquita. Calma, Rita Lee é anterior e fundamental. Estou falando de Rock Brasil. 

O Kid Abelha era uma fábrica de hits. Se você for enfileirar os sucessos, preencheria umas 10 páginas de texto. A conversa entre Liminha e ela foi fascinante para quem gosta de música. Paula fala detalhes de seu processo de composição. Ela conta, por exemplo, que Fixação nasceu de sua observação sobre o homem que tentou matar Ronald Reagan porque era apaixonado por Jodie Foster. Em outra passagem, Paula diz que na época em que escreveu a letra de Garotos, achou que tinha exagerado e sido agressiva, mas hoje considera a música feminista. 

Lembrei muito de Paula Toller lendo o jornal de hoje, mais especificamente a reportagem de Sérgio Matsura na seção de Sociedade. Cientistas americanos inventaram uma máquina de controlar os sonhos. Em linhas gerais, a máquina é um robô que monitora o sono e faz perguntas ao paciente para que ele responda enquanto estiver naquela fase inicial do sono. Para evitar que as ideias se percam, as respostas são gravadas. 

A nova máquina poderia acabar com a angústia de Paula Toller descrita na música Espião: “ Ver você dormir, me corta o coração, o teu sorriso é sonho ou traição. O que você sonhou, eu nunca vou saber, me dá uma pista que eu possa percorrer”. A nova máquina pode ser um perigo para parceiros que não preconizam a fidelidade em seus relacionamentos. 

Na verdade, a brincadeira esconde algo de ruim nossos tempos. O sono é quase um elemento transgressor em nossos dias, como diz o escritor americano Jonathan Crary. Ao explorar essa última fronteira, você consegue o controle absoluto de corações e mentes. 

Num futuro mais próximo do que os filmes de ficção poderiam supor, máquinas como essas podem criar coisas como “índice de produtividade durante o sono”. Quantos problemas você consegue resolver enquanto dorme? Descobrir se o/a parceiro(a) traiu pode ser o menor dos problemas que a máquina de controlar sonhos pode desencadear. 

Não sou alguém avesso às novas tecnologias, mas elas abriram a bolsa de Pandora há muito tempo. O homem tem objetivos monitorados desde a hora em que acorda, até a hora de dormir. Com essa máquina, o monitoramento se espalha para um lugar até então inexpugnável. 

Uma palavra que me irrita no mundo corporativo é usar  “desligamento” em vez de demissão. Acho que além de pernóstico, é  a transformação do homem em equipamento. Pois bem, uma máquina que monitora os sonhos torna realidade a metáfora 

E nessa sociedade 24X7, para usar o título do livro de Crary, até sonhar pode passar a ter custo. Enquanto isso não acontece, vou continuar ouvindo Paula Toller. Aliás, adoro essa dobradinha dela com Chico Buarque na música Dueto.  

sexta-feira, 1 de junho de 2018

Aprender é um ato de desprendimento

Se você tem um blog e se propõe a escrever nele todos os dias, tem que ter seus artifícios para preencher a folha em branco. O meu é caminhar pelas ruas. 

Eu sei, não é novo. Baudelaire já fazia isso por Paris. Então é assim. Sou um copiador que se inspira em Baudelaire. 

Claro que muito mudou entre a nobre pena do “flaneur” e o vulgar bloco de notas do pretenso escriba, que deita à lauta digital algumas palavras.

No entanto, mais que Baudelaire, eu queria ter herdado a precisão do olhar de Machado de Assis. Mas como o dom de bruxo não veio configurado em meus arquivos, fico só na pretensão. Na verdade, o parágrafo anterior tentou homenagear o escritor por meio do estilo. 

Ok, preciso voltar ao texto, ao objeto ao qual me propus escrever. Então, pus-me a caminhar às margens da Lagoa Rodirgo de Freitas. Todos aproveitando a beleza do dia de outono no Rio de Janeiro. 

Não domino a arte da fotografia. Mas meus muitos amigos que podem se orgulhar com a honraria de mestres no assunto sempre destacam que a luz outonal na paisagem carioca deixa os dias de outono deslumbrantes. 

Além de aproveitar a beleza, alguns se dedicavam ao sagrado exercício de se manter em movimento e bombear o coração. Caminhava eu, num misto de procura por inspiração e tentativa de bombear o coração, quando me chamou atenção uma cena. 

Uma moça, de não mais do que 25 anos, usava um skate. Ela colocava no chão, dava uns três impulsos, se equilibrava um pouco e depois perdia o equilíbrio. 

Ao retomar a manobra, se preocupava em não atrapalhar quem vinha em marcha atlética pela Lagoa. 

Pensei que aprender representa antes de tudo um ato de desprendimento. Significa sair da posição de conforto para descobrir algo novo em sua rotina. 

Aquela moça não se importava com o fato de que a maioria das pessoas que andam de skate aprenderam em idades muito anteriores às dela. Mesmo assim, ela foi para a Lagoa, um lugar particularmente inóspito em feriados, devido à superlotação de gente. Ela persistia na saga para se equilibrar em cima de quatro rodinhas. Ao cair, ela colocava o skate na pista, conferia se não atrapalharia ninguém e continuava a jornada. 

Quantas vezes a gente desiste pelo medo de cair, nem sobe no skate e já se julga incapaz de aprender. A queda precede o levantar. Ah, existe ainda a vantagem que de skate a locomoção ganha agilidade. Louvo a moça. Não tive a mesma disposição de aprender que ela demonstra. Até tentei andar de patins, mas acabei um esporádico ciclista.